quinta-feira, 2 de abril de 2009

Ilusões perdidas no tempo.

Por fugir do contexto brasileiro, a obra Ilusões Perdidas, do célebre escritor francês Honoré de Balzac (publicada em 1843) tem seu tema abordado de uma maneira melhor em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, conhecido autor pré-modernista. Ambas, trazendo certo caráter autobiográfico contam a estória de um jovem interiorano que chega a uma capital, seja Paris ou Rio de Janeiro, buscando um futuro promissor, mas se depara com a miséria e a forte competitividade das grandes cidades, encontrando no jornalismo uma chance de sobrevivência, graças aos seus conhecimentos literários.
A obra de Balzac insere-se num contexto específico francês, a restauração da dinastia Bourbon, no qual a imprensa era incipiente e muito dominada pelos interesses individuais, de modo que, na visão do autor, o jornalismo acaba reduzido, sob uma ótica generalizante, a um jogo de intrigas entre indivíduos e ideologias partidárias influenciado pela corrupção. Desse modo, é um livro datado, perdendo relevância para o contexto atual. Enquanto na obra de Barreto, o jornalismo possui várias faces reveladas: a política, a social e a crítica literária, excessivamente abordada no livro francês.
Além disso, o texto é carregado de um pensamento determinista, o personagem central tem seu sucesso constantemente questionado por sua origem desfavorecida e, no final, é derrotado pela sociedade aristocrata de Paris, comprovando a tese Determinista de que um homem sem “linhagem” nobre está fadado à perda. Contudo, o Determinismo recebeu críticas suficientes dos intelectuais posteriores, de modo que tal visão também não deve ser considerada com grande profundidade para uma análise contemporânea.
Ilusões Perdidas é uma obra de grande importância e profundidade para a observação do jornalismo francês no período de 1819 a 1829, entretanto, por generalizar e abordar apenas a modalidade jornalística mais latente da época,a crítica literária, perde a relevância nos dias atuais. Ao passo que a obra de Lima Barreto, por demonstrar as várias facetas da imprensa e não possuir uma visão tão carregada de Determinismo, é mais próxima da realidade contemporânea e, por isso, mais pertinente. As habilidades e o estilo de Balzac não devem ser diminuídos, mas suas idéias são de fácil questionamento através dos conhecimentos atuais.

Um comentário:

  1. Agora vou ler o texto e se necessário fazer comentários, mas pelo que já li, sua resenha está muito boa.

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